minha primeira vez
Nos últimos cinco anos me tornei assídua em trilhas e travessias. Acampar junto à natureza, olhar as estrelas, dormir em barracas e fazer cocô no mato. Adepta do Leave No Trace, cujo princípios são de minimizar impacto humano durante as atividades outdoor, tenho o conhecimento que devemos levar para casa todos os nossos dejetos, inclusive as fezes.Foi quando descobri que “ fazer cocô no mato” pode não ser tão fácil assim para a maioria das pessoas.
Então vamos lá.Nos acampamentos selvagens usamos o Shit Tube para recolher e armazenar os dejetos até estarmos de volta à um local apropriado para descarte.
Quer trilhar? Sim , que cada um carregue a sua merda! Justo, não é?
E la fui eu, já com dores na barriga precisando me aliviar depois de um dia de caminhada. Shit Tube em mãos, o meu composto de um cano de PVC, cal , sacos plásticos e papel higiênico, procuro um local onde possa me sentir protegida dos olhares alheios e do vento frio da Mantiqueira.
E agora?Sentada ? Em pé? De cócoras? Como a humanidade ocidental desaprendeu o ato mais natural que é defecar?
E se você acha difícil fazer cocô fora de casa, imagine a sensação de exposição ao sentir o sol em suas nádegas, o céu e o horizonte sem fim como testemunhas, e você ali, pensando na pose em que Napoleão perdeu a guerra, agachado e com os ouvidos mais atentos do que quando você quer ouvir a conversa da mesa ao lado.
E para piorar, ABELHAS!!!
Sim, a minha primeira vez foi na presença de um grupo de abelhas cantarolantes.
Agacho, levanto, ajeito o saco plástico, confiro os equipamentos, agacho novamente, abstraio as abelhas e tento relaxar. Desta primeira vez não consegui apreciar a vista, como nas demais, mas consegui finalmente me aliviar.
Tudo limpo e recolhido, à salvo das abelhas, e eu com o peito inflado com a sensação de missão cumprida! Que sensação!!! Me libertar dos padrões sociais, reconectar com meu lado selvagem, descobrir que tenho mais liberdade de ir e vir, sem depender de um vaso sanitário. Descobrir- me simples.
Minha primeira vez me transformou.
E assim fiz a única coisa que poderia ter feito, voltei ao acampamento, correndo, shit tube em mãos e gritando como uma criança que tirou uma nota máxima no boletim: ”consegui! Consegui!”.


